O mundo contemporâneo muitas vezes parece mergulhado em um caos irreversível, o que levou o dramaturgo George Bernard Shaw a brincar que a Terra seria o "manicômio" de outros planetas. Essa percepção de desordem reflete o cenário descrito nos primeiros capítulos de Gênesis, onde a humanidade se perdeu em uma sucessão de erros como o homicídio, o engano e a rebelião. No entanto, diante desse panorama de falhas, a resposta de Deus não foi o extermínio, mas a oferta de um recomeço por meio de um chamado específico a um homem e sua esposa, visando restaurar o propósito da criação.
O ponto de partida para essa nova vida foi Ur dos Caldeus, uma cidade mergulhada na idolatria ao deus Lua, onde Abraão vivia sem conhecer o verdadeiro Deus. O chamado divino a Abraão foi um ato de pura graça, pois ele não possuía méritos para ser escolhido, lembrando-nos de que a iniciativa da salvação e da transformação sempre parte do Criador. Ao confiar e obedecer, Abraão deixou para trás seu ambiente idólatra para inaugurar uma caminhada de fé, servindo de exemplo para todos que desejam viver de modo agradável ao Senhor hoje.
O propósito de Deus ao chamar o casal ia muito além de uma bênção individual ou da salvação pessoal de ambos. O objetivo era estabelecer uma linhagem que abençoaria todas as nações da Terra, o que se cumpriu através da formação do povo de Israel, da preservação das Escrituras e da vinda de Jesus Cristo, o Salvador. Assim, a nova vida proposta a Abraão tornou-se o canal pelo qual a graça alcançaria toda a humanidade, mostrando que a obediência de um único homem pode gerar frutos eternos para o mundo inteiro.
Essa jornada não foi baseada em sentimentos ou emoções passageiras, mas na firmeza de uma aliança estabelecida pela Palavra de Deus. A verdadeira fé se apoia naquilo que Deus diz, e não nas circunstâncias visíveis, o que foi essencial para que Abraão e Sara cressem na promessa de uma descendência, apesar da idade avançada. Como "grandes vidas são moldadas por grandes promessas", a aliança divina forneceu a estrutura e a força necessárias para que eles suportassem as incertezas de uma vida de peregrinação.
Viver essa nova realidade exige que o crente se apoie exclusivamente no caráter e no poder de Deus, redefinindo suas prioridades mais profundas. Andar pela fé implica que o amor ao Senhor deve ser tão intenso que qualquer outra afeição pareça secundária em comparação a Ele. Deus frequentemente chama Seus filhos para momentos de "solidão" espiritual, onde a dependência d'Ele é testada e fortalecida, exigindo que o caminhante não faça concessões com os valores do mundo que ficou para trás.
A diferença entre o sucesso e o fracasso nessa caminhada reside no nível de compromisso assumido com o Senhor. Enquanto muitos apenas planejam ou tentam empreender caminhos próprios, como fez Ló, Abraão e Sara foram "realizadores" porque dedicaram seu futuro integralmente ao cumprimento da vontade divina. Eles assumiram o risco da obediência, transformando a promessa teórica em uma realidade vivida, o que os permitiu receber a plenitude do que Deus havia planejado para o destino daquela família.
Por fim, a nova vida é caracterizada por um movimento contínuo e pela recusa ao comodismo espiritual. A Bíblia utiliza verbos de ação para descrever Abraão — ele partiu, atravessou e seguiu — indicando que a fé cresce à medida que os pés se movem em direção aos desafios propostos por Deus. Um cristianismo estático e confortável é o oposto da vida de peregrinação; é apenas quando enfrentamos novas circunstâncias em obediência ao Senhor que obtemos percepções profundas sobre quem Ele é e sobre quem somos n'Ele.
Pr. Eli Vieira Filho